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Além do Cabelo
Câncer não é escolha. Bom humor é.

22.fev.2016

Afinal, o que é “vencer o câncer”?

Por Flavia Maoli 5 Comentários , , ,

Já falei aqui o quanto me incomoda quando alguém usa a metáfora do câncer como guerra, né? Porque sim, é difícil ter câncer, sim, é cansativo fazer tratamento – mas continuamos vivos, acima de tudo. Não quero que uma coisa tão linda quanto a minha vida seja descrita como uma guerra – apesar de entender que não é por mal que as pessoas usam esse tipo de termo. Mas, via de regra, tem-se entendido que, se a pessoa se curou, ela venceu o câncer. Se a pessoa morreu de câncer, então ela perdeu a batalha. Será mesmo?

E quando dizem “Você é uma guerreira vencedora!!!” eu só penso “gente, traz a granada prfvr!”

 

Conheço muitas pessoas que receberam um diagnóstico de câncer. Algumas fizeram seu tratamento há anos, outras acabaram faz pouco tempo, outras ainda estão no processo. Algumas ouviram dos médicos que seu caso era altamente curável, e de fato não adoeceram novamente. Outras já não tiveram a mesma sorte, e convivem com a ideia de que seguirão fazendo tratamentos pro resto da vida – ou até a medicina encontrar solução para seus casos (OREMOS!).

Uma vez eu estava conversando com uma moça que teve câncer há muitos anos, beirando uma década de distância do tratamento já. Falei a ela que pessoas como ela me inspiravam a confiar que ia dar tudo certo – afinal, ela nunca mais havia adoecido. Para minha surpresa, ela me respondeu mais ou menos assim: “É verdade… nunca mais tive essa doença. Mas vou te confessar uma coisa, viu? MORRO de medo de ter isso de novo!” Tentei argumentar dizendo que é normal ter medo de ter câncer de novo, mas que a gente tem que aprender a lidar com esse medo pra ele não dominar nossas vidas. Mas ela complementou “Eu tenho medo de ficar doente o tempo todo. Todos os dias eu acho que vou ter câncer novamente!”

Gente, é isso que vocês chamam de “vencer o câncer”?!

O fato é: sim, é normal ter medo de ter câncer novamente – afinal, é uma situação muito difícil, assustadora e, de certa forma, traumática. É claro que ninguém em sã consciência iria quer voltar a fazer tratamento. É claro que, depois de ter câncer, a qualquer sinal estranho que o corpo der – uma tosse prolongada, uma fisgadinha no intestino, uma dor de cabeça esquisita – nós vamos pensar

 

AIMEUDEUSAGORAÉMETÁSTASEQUEMERDAFUDEU!

 

MAS se esse medo toma conta de você o tempo todo, todos os dias da sua vida, então eu sinto muito em lhe dizer: você não venceu o câncer – você se tornou refém dele!  Porque ninguém é feliz com medo o tempo todo. Depois de tudo que você já penou por causa do câncer, não é justo que você dedique sua vida a ter medo dele! Não foi pra isso que você fez tratamento, certo?!

Mas então, Flavia, você não tem medo de ficar doente?! 

Claro que tenho! Mas toda vez que eu fico com medo eu penso: das duas uma – ou esse medo me paralisa e me faz não aproveitar minha vida, ou ele me impulsiona a ir atrás dos meus sonhos o quanto antes! Ninguém tem garantia de nada, com ou sem câncer, e saber disso deveria ser um empurrãozinho nas costas para fazer você viver o presente. Será que eu vou ter tempo de fazer tudo o que quero? Não sei! Então bora fazer o que for possível, certo?

Já escrevi sobre isso por aqui – a paranoia da recidiva e a recidiva da paranoia, lembram? Pois, quando eu começo a entrar nessa paranoia de essa-espinha-no-nariz-só-pode-ser-uma-metástase, eu paro e lembro que meu corpo escuta TUDO o que minha cabeça fala para ele! Assim como funcionam os mantras, cada vez que você repete para si mesmo que você pode estar doente, seu corpo vai absorvendo essa mensagem. Não faça isso com vocês, por favor! Aproveite que você é um ser racional e mande uma mensagem positiva – mesmo que tenha que repeti-la mil vezes até se acalmar!

 

Você não pode ficar ouvindo toda e qualquer vozinha que surgir na sua cabeça. Isso vai te deixar louca!

 

Vejo pessoas que não tem chances de cura falarem sobre o tempo que lhes resta com uma tranquilidade que é quase ofensiva a quem se julga imortal. De uma maneira muito calma, às vezes a pessoa que já foi desenganada pelos médicos consegue viver com muito mais qualidade (mental, principalmente) do que quem sabe que tem chances de cura. E não que ela tenha jogado a tolha – ela simplesmente compreendeu a verdade mais óbvia, que a gente se esforça para não ver: a morte é uma certeza. A partir do momento que você sabe disso racional e emocionalmente, tudo se simplifica. A vida é uma só e é bem curtinha – não desperdice seu tempo, insista em ser feliz.    

Porque vencer o câncer não é necessariamente se curar dele, mas sim superá-lo. É aceitar o panorama que você tem, abraçar sua biografia com a parte bonita e com a feia também. É digerir a informação de que você é mortal, de que pode ser frágil e então colocar o câncer no lugar dele. De preferência bem guardadinho, como um momento desagradável, mas de aprendizado intenso, que fez parte da sua vida no passado – mas nunca, NUNCA ocupando sua cabeça, sua energia e seu presente. Combinado?

 

E se der medo, vai com medo mesmo! Só não vale parar a vida e ser refém do câncer!

 

Beijos,

 

Flavi

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5 respostas para “Afinal, o que é “vencer o câncer”?”

  1. Luis Henrique disse:

    Boa Flávia isso mesmo vamos viver a vida que tem para ser vivida da forma que for. Com os atuais avanços cada vez mais pessoas tem se curado definitivamente e você ta certa o que vale é abraçar a situação e encarar de frente. seu texto me lembrou um do Mário Quintana, que é assim :
    Um dia…Pronto!…Me acabo.
    Pois seja o que tem de ser.
    Morrer: Que me importa?
    O diabo é deixar de viver.

    Morrer todos vamos, agora o que não podemos é deixar de viver.
    Hoje fiz a ultima quimio depois de dois anos e meio de tratamento.
    Agora estou em remissão , e a paranóia da recidiva ou a recidiva da paranóia que passe longe , mas como vc disse é normal a qualquer sinal estranho no nosso corpo dar um pouco de medo.
    Teu blog é show de bola , sempre acompanho e recomendo também a outras pessoas.

  2. Adriani lucas disse:

    Muito legal suas colocações,
    Na minha penúltima sessão de quimioterapia tive a visita da psicóloga,
    Ela me perguntou como estava vendo essa situação e em meio a conversa, me perguntou se eu pensava “porque Comigo? “?
    Disse a ela que ao receber esse diagnóstico, acredito que não exista quem não tenha medo e pense isso, mas como tenho muita fé, comentei que em efeitos capítulo 2 diz que há um tempo para tudo, tempo para falar, para ficar calado, para chorar e agir.
    Então, me permiti passar por todos os processos naturais de um diagnóstico desse, sem culpa é pânico, mas me apeguei a HORA DE AGIR.

    Hoje me perguntaram como posso estar tão bem fazendo quimioterapia, respondo a verdade , faço, passo mal na primeira semana mas depois fico bem e não me acho com câncer. Vida quase normal.
    Vivo o hoje com qualidade que posso ter dentro de minhas possibilidades, e o resto, lanço meus fardos sobre o Deus criador. Pois a ele pertence o futuro.
    E a ciência está evoluindo tanto que…Quem sabe, em breve a cura estará acessível a Todos. Não?

    Fé, confiança, fazer minha parte e seguir em frente. (Hoje é assim que vivo).

    Obrigada por suas palavras tão animadora que também me ajudam muito.

    Parabéns FLAVIA

  3. Roberta disse:

    Obrigada pelo texto, me ajudou muito.
    Roberta.

  4. IRENILDES BENEVIDES disse:

    Recebi o diagnostico esses dias e vou me curar, e o f. Eu acredito na cura total.

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