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Além do Cabelo
Câncer não é escolha. Bom humor é.

08.fev.2016

E se o cabelo não caísse?

Por Flavia Maoli 18 Comentários , , , , , ,

Dia desses, alguém me perguntou se eu achava que o câncer seria visto de forma diferente se o tratamento quimioterápico não causasse a queda dos cabelos. Será que as pessoas teriam menos medo de falar a palavra câncer se o tratamento não causasse a queda do cabelo?! Respondi imediatamente: não tenho dúvidas que sim! Mas a reflexão me levou muito além da pergunta.

 

Perder os cabelos é estar exposto, desnudo sob os holofotes que são os olhos dos outros. Está vendo aquela menina ali? Ela está com câncer. Os vizinhos, o motorista do ônibus, as crianças indo para escola – todo mundo enxerga que você está em tratamento. E você não tem motivo algum para ter vergonha disso! Câncer é apenas uma doença difícil. Mas a queda dos cabelos faz com que você seja obrigada a expor ao mundo algo muito particular seu, em um momento em que, muitas vezes, nem você mesma se adaptou à sua nova realidade. Além disso, é no momento em que o cabelo cai que a ficha cai junto: sim, isso está acontecendo. E é com você. E é agora.

O cabelo é muito mais do que apenas fios: ele faz parte da imagem que você tem de si mesmo, e que os outros têm de você. Ele faz parte de quem você é – e quando ele cai sem pedir licença, você precisa de algum tempo para descobrir quem é essa nova pessoa que observa no espelho. Não somos Sansão, mas precisamos redescobrir de onde vem nossa força e sensualidade feminina senão dos cabelos.

Os cabelos sempre foram uma fonte de poder, mistério e identidade social – não é à toa que muitas religiões exigem que as mulheres cubram suas madeixas ao andar nas ruas, ou que certos penteados sejam moda apenas entre adolescentes. Não era apenas por motivos de higiene que os prisioneiros tinham a cabeça raspada ao chegar ao campo de concentração: sem cabelos, sem documentos, sem seus pertences, eram identificados apenas por um número. Eles não eram mais quem eram antes de entrar ali. Você sabia que essa humilhação é corriqueira nas favelas do Rio de Janeiro? Mulher que trai o marido, briga ou é homossexual tem a cabeça raspada, para “aprender a se comportar” e servir de exemplo às outras.

 

E no período pós II Guerra, mulheres francesas que tiveram relacionamentos com alemães durante a ocupação tinham seus cabelos raspados como forma de punição e humilhação.

 

Outras doenças difíceis, como a AIDS, por exemplo, não expõe tanto as pessoas aos olhar alheio. Não que seja fácil descobrir-se doente – mas ao menos é algo que você pode guardar para você, e dividir apenas com pessoas de confiança ou com quem mais você quiser. Tornar pública sua vivência é uma escolha, e isso faz com que você mantenha algum controle sobre o que está acontecendo.

Nesses quase três anos de blog, já conheci muita gente vivenciando o câncer. Gente que não se importou em perder o cabelo, gente que achou a queda do cabelo o momento mais difícil do tratamento, gente que se adorou careca, gente que dormia de peruca para não precisar se ver sem cabelos. Conheci também algumas pessoas que tiveram câncer e não perderam os cabelos. Não tenho dúvidas de que essas pessoas enxergaram a doença de uma forma totalmente distinta da de quem ficou careca. 

Primeiro, porque as pessoas leigas acreditam que, se o cabelo não caiu, a doença não é tão grave assim – e essa ignorância poupa quem foi diagnosticado dos olhares de piedade. Segundo, porque a pessoa que não perde os cabelos pode escolher para quem, quando e como irá contar o que está acontecendo – o que é uma bela maneira de empoderar-se da situação. Terceiro, porque quando o tratamento acaba, ele acaba. Talvez você tenha cicatrizes com as quais irá aprender a lidar mas, a grosso modo, as mudanças físicas são menores (ou mais camufláveis) do que esperar os cabelos crescerem novamente – ou, pelo menos, o cabelo é um assunto a menos para se ocupar.

Imagina terminar as quimios assim, com o cabelo intacto?

Felizmente, o tratamento contra o câncer está ficando cada vez mais individualizado, menos nocivo e mais focado nas células tumorais. Muitas das novas medicações já não causam a queda dos cabelos – como o Brentuximab, que utilizei em 2014. Posso dizer, por experiência própria, que não ter enfrentado a perda dos cabelos em meu terceiro tratamento contra o câncer foi, sem dúvida, uma maneira de torná-lo muito mais leve para mim. É claro que as mudanças psicológicas quando se encara o câncer acontecem sim – com ou sem a queda do cabelo – mas atenuando-se as mudanças físicas, o câncer passa a ser o que realmente é: apenas uma doença.

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18 respostas para “E se o cabelo não caísse?”

  1. Carolina disse:

    Olá, gurias!! Excelente texto. Estou me tratando de câncer de mama há um mês, 12 dias após a quimio meus cabelos se foram. Sinto os olhares de pena das pessoas e já estou me acostumando com isso. Todos que me vêem pela primeira vez careca, perguntam se estou bem e eu respondo que sim, pois assim me sinto, mas parece que não se convencem disso por causa da carequisse. Tenho certeza que se a quimio não tivesse
    esse efeito colateral, o tratamento seria levado de forma muito mais leve, sem essa carga de vitimização. Adoro o blog. Beijos.

    • Flavia Maoli Flavia Maoli disse:

      Oi Carol! Verdade, né? Mas mais do que se acostumar com os olhares, você vai começar a aprender quais são os looks que te deixam mais confiante, pra andar de cabeça erguida por aí e ninguém OUSAR fazer cara de peninha pra você! 🙂 Muito obrigada pela mensagem! No que precisar é só nos escrever 😀 Beijão, Flavia

  2. Luis disse:

    Não acho que o cabelo tenha essa importância toda, ele pode ser a primeira coisa que vem a cabeça quando se pensa no tratamento, mas os inúmeros efeitos colaterais que a quimioterapia trás para mim são mais difíceis de enfrentar do que a queda do cabelo.
    É até prático ficar sem cabelo e se ver diferente, prefiro encarar pelo lado de estar diferente e isso ser algo legal. Mas o stigma da doença tem muita relação com o medo da morte e acho que mesmo que o cabelo não caísse o tabu permaneceria.
    Acho também que não devemos “culpar” as pessoas por terem pena , elas simplesmente não sabem lidar com o que é diferente , quando se entre de máscara em algum lugar, por exemplo, é normal que todos olhem não acho também nada de mal nisso.

    • Flavia Maoli Flavia Maoli disse:

      Verdade, Luis! Existem muitos outros efeitos, e cada pessoa se abala de forma diferente com eles. Que bom que você não se importa com a queda do cabelo, é ótimo se sentir bem! Mas é desagradável ser olhado por pena ou até com medo, né? Quando eu saía de máscara odiava a maneira como as pessoas me olhavam. Hoje em dia eu procuro olhar para as pessoas que considero diferentes (ou por estarem de máscara, ou sem cabelos, ou amputadas, com cicatrizes, etc) com um olhar simpático, porque sei o quão ruim é ser olhado como se vc fosse um et.

  3. Adriani lucas disse:

    Olá garotas,
    Trabalhei muitos anos como técnica de enfermagem em infectologia, e na realidade achava incrível como medicações modernas davam qualidade de vida a pacientes portadores do hiv.
    Pacientes que levam uma vida normal sem que ninguém saiba de sua patologia.
    Mas com o câncer agora, vejo o outro lado da situação.
    Pois é, como evitar a piedade e preocupação excessiva de muitos ao me ver Careca?
    Por mais que diga que estou melhor fazendo tratamento quimioterapico do que quando não sabia da doença, a maioria não acredita,.
    Não tem como passar desapercebido e levar uma vida nem quase normal.
    O texto expressa muito bem a situação é acho importante saber que outros também tem essa mesma sensação.
    Parabéns.

    • Flavia Maoli Flavia Maoli disse:

      Muito obrigada, Adriani! O negócio é mostrar para os outros que você continua sendo quem era antes do tratamento – quer dizer, mesmo diferente, você NÃO É a doença nem a qumioterapia. Muitas pessoas vão duvidar, achar que é negação sua ou autodefesa. Mas o que mais importa é você estar de bem consigo, o resto não interessa 🙂 Beijão!

  4. Viviane disse:

    Olá, estou na metade do tratamento ( na verdade já passei um pouquinho da metade ) e realmente pra mim está sendo muito difícil lidar com a perda dos cabelos. Estou usando peruca mas fico achando q td mundo está percebendo e não me sinto a vontade expondo isso pra td mundo pq além das pessoas não entenderem MTS ainda fazem comentários sem noção… Agora estão caindo também as sobrancelhas e os cílios e TB não é fácil! Só espero q td isso passe logo pra vida seguir… Ótimo site, parabéns!

    • Flavia Maoli Flavia Maoli disse:

      Oi Viviane! É, essa fase é um saco! Mas quanto a peruca, não te estressa tanto, você tem que ver a peruca como um acessório bacana, assim como lenços e chapéus! Você já leu nossos posts sobre as sobrancelhas? Dá pra desenhá-las e usar sombra para dar a sensação de cílios! O efeito fica ótimo enquanto os pelinhos não voltam 😀 Beijão!

  5. Dani disse:

    Concordo com você Flávia… se o cabelo não caísse tudo ficaria mais leve. Hoje estou realizando a radioterapia e os cabelos estão crescendo. No meu dia a dia uso peruca, lenço, bonés… mas sinto tanta saudade da minha cabeleira…dar um mergulho delicioso na piscina livre, leve e solta. Mas se a gente parar para pensar, vem uma força tão grande que esse probleminha fica pequeno. Mas torço muito para que cada vez mais, o tratamento seja menos invasivo possível e que possamos passar por tudo isso com nossos cabelos.
    E você fez quimio 3 vezes? Pensei que tivesse sido apenas 2…te admiro mais ainda!
    Beijos

    • Flavia Maoli Flavia Maoli disse:

      Oi Dani! Verdade!!! Sim, fiz o primeiro tratamento em 2011, depois em 2013 (quimio+transplante) e em 2014 fiz mais um tratamento complementar, é uma terapia alvo chamada Brentuximab. 2015 foi o primeiro ano que não fiz nenhum tratamento 😀 Eu entendo que dá saudade do cabelo, mas não te preocupa que daqui a pouco ele volta fortão!! 😀 Beijoo

  6. Cris disse:

    Acho o cúmulo as pessoas descobrirem o câncer e pensar só no cabelo, tanta coisa acontecendo, familiares, amigos, pessoas preocupadas, risco de morte…e tudo se resume a cabelo, a preocupação, o sofrimento, sempre vem por causa do cabelo. E é ridículo isso, porque em geral volta a crescer depois do tratamento. Desculpa se ofendi alguém, mas é isso que penso, não tenho câncer e espero não ter que enfrentar isso, mas sofro com a perda de cabelos e não! eles não vão crescer novamente! aí quando eu escuto alguém falar …tive câncer…a pior parte foi quando os cabelos caíram…(:o) Juro que não entendo! A possibilidade de deixar os filhos sem mãe, todo o sofrimento físico, isso tudo não é nada? beijo e melhoras a todas!

    • Flavia Maoli Flavia Maoli disse:

      Oi Cris! Tem situações que a gente só entende vivenciando mesmo. Sim, a perda do cabelo dói muito, não pelo cabelo em si, mas porque é o momento em que você tem que encarar o que está acontecendo e o pior, se sente exposta ao mundo. Todo mundo te vê careca e sabe que você está com câncer. É um descontrole muito grande sobre seu próprio corpo, não é besteira. Quanto ao risco de morrer, todos nós vamos algum dia, certo? É claro que a gente sofre e pensa que vai morrer quando descobre que está com câncer, mas se formos pensar que vamos morrer, então é melhor nem começar a fazer o tratamento. Quando aceitamos fazer a quimio (e, consequentemente, perder os cabelos) estamos apostando na possibilidade de continuarmos vivas. Espero que você nunca precise passar por isso, mas torço para que não julgue as pessoas pelos seus sofrimentos. Cada um encara de uma forma e é preciso ter respeito.

  7. LIANA disse:

    Vim parar no site por causa da minha mãe. Ela fez uma cirurgia e agora enfrenta a queda de cabelo. É difícil para quem não vivência isso entender a dificuldade que a queda de cabelo é para quem está doente. Acho que é como vc falou: acaba expondo para o mundo a sua vulnerabilidade é ser vulnerável é extremamente difícil. Estou atrás de entender e saber como poder ajuda-la. Beijos

    • Flavia Maoli Flavia Maoli disse:

      Oi, Liana! Sim, essa fase é bem difícil mesmo. Acho que é legal ela ler o blog, temos vários posts falando sobre essa fase e também mostrando como aproveitar o tratamento para se reinventar e redescobrir 🙂 No que precisar escrevam! Beijos!

  8. Jacidalva dos Reis da Silva Santana disse:

    Fiz a cirurgia e agora vou começar a quimo e depois a radio e as medicações, como é difícil ficar vulnerável e cair a ficha, e ser a coitadinha, a doente, a que pode morrer, ainda tem pessoas que não vivenciou que acha besteira o cabelo cair, eu raspar o cabelo pq quero é uma coisa, o cabelo cair por causa de tratamento é outra coisa, prometi a mim mesma que iria ler tudo e não me manifestar, mas senti vontade de opinar, estou aterrorizada, fragilizada, todos sentimentos que me deixa para baixo. Como enfrentar mais de 2.000 alunos, colegas, pessoas?

    • Flavia Maoli Flavia Maoli disse:

      Oi, Jacidalva! Sim, essa fase é difícil mesmo!!! Mas vou deixar aqui alguns pensamentos pra você pensar:

      1. você NÃO é coitadinha, você só está doente. Não sinta pena de você mesma e não deixe os outros te tratarem como incapaz! Infelizmente as pessoas ainda tem muito preconceito em relação ao câncer e veem o diagnóstico como sentença de morte;

      2. Sobre morrer – todo mundo vai, com ou sem câncer! O negócio é que a gente pode tentar empurrar a morte mais pra lá, mas esse é o nosso destino certo. Então quando você ficar com medo de morrer ou alguém der a entender que você está condenada, lembre-se disso! Somos todos mortais – só vamos tentar empurrar esse momento inevitável mais umas décadas pra frente!

      3. Se vc estiver querendo conversar sobre isso, pode me mandar e mail pra alemdocabelo@gmail.com, no que eu puder te ajudar será um prazer 🙂

      4. Sempre que sentir vontade de falar sobre isso, fale! É normal sentir medo, é normal ter vergonha de perder o cabelo – mas são sentimentos que não nos fazem bem e a gente precisa achar uma maneira de superá-los! Felizmente temos muitas artimanhas que podem ser usadas – maquiagem, lenços, perucas, próteses capilares… vá atrás das alternativas para passar por essa fase do jeito mais tranquilo possível! No que precisar, estaremos aqui!

      Abraços, Flavi

  9. Mairs disse:

    Quando tive câncer da primeira vez foi terrível perder meus cabelos cacheados que iam até a cintura Tive vontade de morrer naquele momento. Usei uma peruca mas certo dia sentindo muito calor tirei no meio da rua. Quando o vento bateu em minha cabeça senti uma sensação tão gostosa que resolvi nunca mais usaz-la.
    Infelizmente precisei passar pelo processo novamente. Só que muito pior
    Os cabelos ja nem importavam pois fiquei à Beira da morte
    Muito magra e abatida fiquei um ano sem me olhar no espelho. Quando às vezes me olhava eu mesma sentia pena de mim. Um dia eu me olhei e pensei: Meu Deus isto é a morte.
    Mas milagrosamente venci mais uma vez embora precise fazer controle com hormonioterapia.
    Meus cabelos agora estão crescendo lentente por conta destes hormônios. Mas diante do que passei é uma Vitória. Eu creio com certeza que tudo seria mais fácil se não perdessemos tanto de nos na luta contra a doença. Mas tempos melhores virão. Para todas nós.

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