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Além do Cabelo
Câncer não é escolha. Bom humor é.

15.ago.2016

Histórias que Inspiram: Amanda Mendonça

Por Flavia Maoli 1 Comentário

Quem também ama começar a semana super motivado com uma História que Inspira levanta a mão!!! Hoje quem traz seu relato emocionante é a Amanda Mendonça, de Porto Alegre. Vamos lá?

 

“Meu nome é Amanda e depois de passar a adolescência sendo chamada de “seca” e “Olivia Palito”, resolvi tentar a carreira de modelo. Cheguei a modelar por algum tempo, morei em São Paulo, fiz alguns desfiles, fotos, figurações em comerciais. Cheguei até a ser Garota Verão de Viamão em 94, sendo finalista e tudo (me senti velha e linda agora!). No entanto, achava que ser modelo não era bem o que queria fazer, e resolvi estudar para cursar psicologia.

 

Estava no cursinho pré-vestibular, estudando bastante, namorando há 2 anos, quando comecei a me sentir muito cansada, com dores no peito, que meus pais diziam ser gazes. Afinal, minha saúde era ótima e eu nunca ficada doente! Na mesma época comecei a ter suor noturno – de acordar com minha roupa ensopada! Também tossia muito durante as aulas do cursinho, mas achava que era por causa do ar condicionado. Até que um dia eu desmaiei no meio da rua. Minha família ficou muito assustada, e na semana seguinte fui ao posto de saúde perto da minha casa. O médico me fez algumas perguntas e solicitou exame de sangue. Ao receber o resultado, apesar de leiga, vi que meus glóbulos brancos estavam muito alterados.

Fui então, na minha médica de confiança, que me pediu um Raio X com urgência. Achei tudo muito estranho, muito mesmo, pois era paciente deste hospital há anos e sabia como as coisas demoravam. Foi então que a médica me pediu para ir num especialista “pneumo-oncologista”, e minha mãe começou a chorar. Eu não entendi nada, minha mente simplesmente bloqueou aquela informação, não entendi que “onco” significava “médico de câncer”. Foi só ao sair do hospital, com minha mãe em estado de choque, e eu muito atônita, quase sem entender absolutamente nada do que estava acontecendo, que foi caindo minha ficha…. aos poucos….
– Como assim câncer? Foi isso que ela disse? Não pode ser!

 

Isso aconteceu em 2000, eu tinha 23 anos. Nunca havia estado doente, nunca fumei, bebi, nunca usei drogas, fazia tudo tão direitinho. O que eu fiz para merecer isso?
Esses pensamentos vinham o tempo todo na minha cabeça.
Ao chegar em casa, foi pior. Ver meu pai chorando daquele jeito, minha vó, minha tia, todos em volta de mim, sem saber o que dizer, se me abraçavam, se se abraçavam, se choravam, se fingiam que não estava acontecendo… não foi nada fácil.
No dia seguinte comecei uma bateria de exames e consultas com outros médicos – em uma busca frenética para que alguém me dissesse que era uma pegadinha e que aquilo não estava acontecendo. Todos os médicos de confiança da família eu fui, e em muitas especialidades que nada tinham a ver com a minha doença. Até que uma amiga de não sei quem, trabalhava com o melhor pneumologista de Porto Alegre, e lá fomos nós para mais uma consulta – mal sabia eu que era só a primeira vez que eu iria àquele hospital.

Nesta consulta tinham 11 pessoas comigo, e lembro de cada uma delas: pais, vó, tia, primos, namorado, sogra… e o médico me disse que eu estava com o tal do Linfoma de Hodgkin – e que segundo ele, era como gripe em jovens e que tinha grandes chances de ficar curada.
O médico me disse para cortar o cabelo e ir me preparando para iniciar a quimioterapia. Eu de novo, não entendi. Cortar o cabelo?Lendo isso parece loucura como eu não me dava conta dessas coisas, mas tudo aconteceu tão rápido que eu realmente não conseguia processar as informações.

 

E veio mais um filme na minha cabeça, me lembrei de vários desfiles que não quis fazer, pois tinha que cortar ou pintar meu cabelo, pensei no quanto gostava das minhas longas madeixas, e o quanto aquele cabelo me representava. Não pensei na cura, pensei que ia ficar sem cabelo.
Na semana seguinte já coloquei o cateter para iniciar as quimios – ele parecia uma tampinha de Coca Cola no meu peito. Eu tinha muita vergonha daquele calombo saltado no meu peito – parecia que ele era a primeira coisa que as pessoas viam ao me olhar. Sei que parece exagero, mas só quem passou por isso sabe a proporção que esses detalhes tomam nessas horas. Em menos de um mês eu passei de modelo à paciente oncológica – dá pra imaginar o choque, não é?

 
Comecei as quimioterapias. Engordei 14 quilos em um mês devido aos corticoides – e à fome insaciável que eles dão! Depois das quimioterapias, fiz sessões de radioterapia. O momento mais difícil do tratamento certamente foi, sem dúvida, quando meu cabelo começou a cair.  Comecei a fazer terapia, pois precisava de ajuda. Sempre trabalhei com a minha imagem e para mim, ficar sem o cabelo era como se perdesse minha identidade. Passei por duas psicólogas com as quais não me identifiquei, até que conheci a Keila, que fazia pesquisa sobre como os medicamentos faziam efeito no corpo de pacientes com câncer, com quem me identifiquei. Se não fosse a terapia eu teria demorado muito mais para aceitar minha realidade – nas consultas era onde eu chorava, extravasava meus medos, elaborava o que estava acontecendo comigo.


Tive momentos de tristeza em que pensei que não iria conseguir superar o câncer, que não iria sobreviver. Mas minha força, minha vontade de viver era muito forte, muito mesmo. Não gostava de me olhar no espelho, não gostava de me ver careca, gorda e feia, e também não me sentia bem em ir em eventos sociais, mas meu namorado (que hoje é meu marido) me forçava, quase me obrigando a ir, e aos poucos eu ia enfrentando o que a vida estava me trazendo. Lembro que um dia uma amiga que já tinha passado por um câncer também me disse: você tem que pensar que ficar careca é como se fosse um estilo de vida. Tem tantas pessoas super estilosas, lindas e carecas – e você é uma delas! Essas palavras ficavam no meu inconsciente e me empoderavam para sair na rua. Queria ter feito um book careca, mas minha mãe não deixou, acho que era forte demais para ela me ver assim – e naquela época ter câncer era tabu, não existia esse apoio que hoje as redes sociais fornecem. Era como se você fosse a única pessoa com câncer no mundo, então ninguém conseguia lidar muito bem com tudo isso.
O cabelo foi crescendo, eu fui morar com meu namorado em outra cidade, refazer minha vida. Passei no vestibular, trabalhei como bolsista e engravidei. No dia que descobri minha gravidez era como se Deus estivesse me recompensando de todo sofrimento que passei, me senti muito agraciada. Mas sofri uma interrupção espontânea com 8 semanas de gestação – e essa dor foi mais forte do que o câncer, como se tivessem me tirado a esperança de ter um novo começo. Fiquei muito mal, muito triste, e comecei a me aproximar mais de Deus, pois precisava acreditar em algo superior para passar por mais esta aprovação. Encontrei as respostas que precisava na minha fé, e em seguida engravidei novamente e desta vez deu tudo certo, tudo perfeito, como tinha que ser. Minha filha se chama Gabriela – que quer dizer milagre de Deus –  e é a razão da minha vida.

 

Concluí o curso de Psicologia e hoje trabalho como psicóloga em uma organização na área de Carreiras, tenho MBA e estou fazendo outra especialização sobre processos de grupo, além de atuar como Coach. Como se não bastasse, tenho um outro trabalho onde coloco também todo meu amor, toda minha energia – faço lembrancinhas personalizadas para festas infantis. Levo uma vida agitada porque gosto de ser assim, gosto de fazer varias coisas ao mesmo tempo. Quem me vê atuando em tantas áreas diferentes, com um cabelão e bochechas rosadas, não faz a mínima ideia de tudo que eu vivi.

Agradeço a Deus diariamente por ter passado por um câncer, por ter me aberto os olhos para vida, por me dar vontade de seguir atrás de meus objetivos e de meus sonhos. Se tudo isso não tivesse acontecido, eu provavelmente teria outros valores, teria continuado vivendo em um mundo de ilusões onde o “ser perfeito” predominava. Hoje tenho orgulho das minhas cicatrizes, e olhar para minha filha é como visualizar uma conquista, uma vitória. Me sinto muito mais forte, mais resiliente e mais encorajada para enfrentar as adversidades que a vida me põe – e que não são poucas.

Com o câncer, aprendi que tudo é uma questão de ponto de vista. Posso olhar para trás e pensar que foi em vão e que não aprendi nada com isso – ou posso ver que me tornei uma pessoa melhor, e que nada acontece sem um motivo. Basta estarmos abertos ao que a vida nos presenteia e aprender com tudo que acontece a nossa volta. Foi por isso que me identifiquei tanto com o blog Além do Cabelo – e fazia algum tempo que estava querendo mandar minha história. Câncer não é escolha, mas a maneira como o encaramos, é. E eu escolho olhar com amor, agradecendo sempre e valorizando cada dia da minha vida como se fosse último.” 

 

Muito obrigada por dividir conosco sua história, Amanda! É muito motivador saber que pessoas como você enfrentaram o câncer há muitos anos e estão aí esbanjando vida!

 

Quer mandar sua História que Inspira pra gente? Escreva para contato@alemdocabelo.com !

 

Beijos e até semana que vem, 

 

Flavi

 

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Uma resposta para “Histórias que Inspiram: Amanda Mendonça”

  1. Eugênia Morais disse:

    Amanda, que história mais linda e exempla!!!.
    Eu, que já a conhecia aqui pela internet, e não sabia absolutamente de nada disso que te acontecei, fiquei admirada, encantada e emocionadíssima com o seu relato.
    Tens a minha admiração, guerreira e vencedora!!
    Deus te abençoe!

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