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Além do Cabelo
Câncer não é escolha. Bom humor é.

05.set.2016

Histórias que Inspiram: Fernanda Lima

Por Flavia Maoli 1 Comentário , , , ,

Vocês já sabem: segunda-feira é dia de ler uma história linda aqui no blog, para começar a semana inspirado e colocando o câncer no lugar dele! Quem divide sua história hoje é a queridona Fernanda Lima, que eu tive o prazer de conhecer pessoalmente ano passado – e que se tornou uma fonte de inspiração para mim. Por quê? Você já vai descobrir!

“Meu nome é Fernanda, tenho 37 anos. Há 18 anos fiz transplante de medula óssea. Então, vêm automática e espontaneamente, inúmeras perguntas: Como descobriste? Quem doou a medula? Como tu conseguiste? Como tu estás hoje? Calma, vamos por parte! 

Bem, essa sou eu hoje – então já adianto para vocês que essa é uma história feliz, apesar de difícil!

Eu sempre tive pressão baixa, principalmente no verão. Nada grave, uma leve tonturinha com as altas temperaturas. Era uma bela manhã do final de janeiro de 1998 – calorão de verão! Me senti mal, e minha mãe me levou para a emergência, pensando que era apenas uma queda de pressão. A médica que nos atendeu fez os procedimentos normais e solicitou uma série de exames. Nesse meio tempo, minhas gengivas, da parte superior, estavam mais baixas. Além disso, eu tinha uma mancha na mão esquerda. Sabe quando usamos limão e vamos para o sol? Pois é, parecia isso.
Com o resultado dos exames (dentre eles, 6,3 de hemoglobina) e a indicação de um amigo, entramos em contato com um hematologista e oncologistaDr. Dalnei Veiga Pereira – e marcamos uma consulta, em Santa Maria (RS). Nessa época, eu morava em Santa Cruz do Sul, também no interior do Rio Grande do Sul.

Com meu querido médico, dr. Valnei

Com meu querido médico, dr. Dalnei Veiga Pereira

Fui hospitalizada no mesmo dia da consulta. A urgência era grande. Meu oncologista, que até hoje amo de paixão, era de uma sensibilidade fantástica, sentou-se ao meu lado, pegou minha mão e me disse: “Tens uma mal formação no sangue, e vamos iniciar um tratamento de quimioterapia”.
Eu, sem entender nada, preocupada apenas com o carnaval que estava próximo, perguntei “Eu vou poder ir ao carnaval?” Claro que não podia. Adolescente, com 18 anos, queria mais era festa e folia. Mal sabia o que me aguardava. Saí do hospital um mês depois. Para quem queria festa… Depois disso, ainda tive mais três internações – era um mês no hospital e uma semana de folga.

Eu e minhas irmãs, Flávia (meio) e Renata (direita). Por fora somos parecidas, mas por dentro somos idênticas - vocês já vão entender o porquê!

Eu e minhas irmãs, Flávia (meio) e Renata (direita). Por fora somos parecidas, mas por dentro somos idênticas – vocês já vão entender o porquê!

Na busca por um doador, iniciamos a procura pelos familiares. Sou a mais velha de três filhas – na época eu tinha 19, a Renata, 18 e a Flavia, 16 anos. Imaginem vocês que, em 1998, os exames de compatibilidade genética eram feitos em Curitiba e o resultado demorava por volta de 90 dias. Nesse meio tempo, bora fazer quimio para controlar a doença! Poderia escrever tantas histórias, umas de dar risadas; outras um tantinho tristes. Cada internação durava por volta de 30 dias no quarto– e muitas vezes eu ficava em isolamento, sem poder receber visitas (e sem internet nem celular, é claro!).

Sim, tricô era uma boa maneira de passar o tempo!

Sim, tricô era uma boa maneira de passar o tempo!

Quando enfim chegaram os resultados, eis que um milagre aconteceu: eu e minhas duas irmãs, nós três, temos medulas idênticas – o que é raríssimo! Segundo Dr. Dalnei, havia 25% de chance de uma delas ser compatível. Minha irmã Renata é asmática, então para evitar riscos, optamos pela medula da Flávia.  Agora era correr para o transplante. Me sinto como o Papa Léguas, que está sempre correndo a mil.

Com minha irmã Flávia, um dia após o transplante.

Com minha irmã Flávia, um dia após o transplante.

O tratamento todo – as quimios e o transplante, aconteceu em Santa Maria. O transplante foi pelo SUS, e eu fui a primeira pessoa transplantada do Centro de Transplante de Medula Óssea (CTMO) do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM). Meu transplante aconteceu no dia 18 de agosto de 1998 – ou seja, esse ano minha medula se tornou maior de idade!

Desde o início do tratamento eu nunca senti medo, sabia que ficaria curada. Até porque, eu não fazia ideia que corria risco de vida, isso facilitou muito. E também sempre estive acima das expectativas dos médicos. No transplante, eu não tive os efeitos negativos normais após este procedimento. Tudo sempre deu certo! Tive apenas uma hepatite medicamentosa. Também pudera né, ingeria 24 comprimidos, com pouca água de 6 em 6 horas durante 3 dias consecutivos. É que para matar a medula, a quimioterapia consistia nesse tratamento mais punk: os comprimidos + 4 dias ininterruptos de medicamento intravenoso.

 

Acho que o que eu mais comi naquela época foram comprimidos! Eram muitos, por muitos dias seguidos!

Acho que o que eu mais comi naquela época foram comprimidos! Eram muitos, por muitos dias seguidos!

Hoje estou super bem, feliz, completei 18 anos pós-transplante! E claro, não venci e tampouco teria conseguido tudo isso, não fosse a energia e o apoio da minha base familiar: minha mãe Nilva, meu pai João Carlos e minhas manas, Flávia e Renata! Ninguém consegue nada sozinho! Não fossem eles, nem a medicina teria me salvado, pois emotiva, sensível, chorona como eu, lutei por mim, mas lutei porque queria ficar por mais tempo com eles!!!

Comemorando minha primeira refeição pós transplante, com as enfermeiras Jô e Lenora

Comemorando minha primeira refeição pós transplante, com as enfermeiras Jô e Leora

Falando na enfermeira Leora, essa foto é atual: eu, ela, minha mãe e minha irmã Fla! 18 anos depois, a amizade segue!

Falando na enfermeira Leora, essa foto é atual: eu, ela, minha mãe e minha irmã Fla! 18 anos depois, a amizade segue!

Já estou chorando aqui – não de tristeza, mas de felicidade pela oportunidade de contar um pouco da minha história. Teve dias ruins, mas só me lembro do que foi bom. Das risadas. Dos momentos divertidos que, sim, sempre acontecem, mesmo em fases tristes. Nada é 100% ruim.

Primeiro dia em casa depois do transplante, com minha irmã Renata e minha mãe. Que bom voltar para casa!

Primeiro dia em casa depois do transplante, com minha irmã Renata e minha mãe. Que bom voltar para casa!

Minha única “sequela” pós tratamento é que hoje em dia eu tenho pânico de hospital – também pudera, né? Já passei mais tempo lá do que a maioria das pessoas! E, claro, sempre me emociono ao falar sobre a minha história. Com isso tudo, aprendi a reclamar menos, a valorizar mais minha família, minha vida e, é claro, minha saúde. Quando temos saúde, temos condições de correr atrás do que queremos! Como eu digo sempre: bora ser feliz, que o resto é bobagem. E bora brindar ao sucesso alheio, pois o nosso é garantido!”

 

Minhas irmãs e eu participamos de campanhas de doação de medula óssea - pois sabemos da importância de se encontrar um doador compatível!

Minhas irmãs e eu participamos de campanhas de doação de medula óssea – pois sabemos da importância de se encontrar um doador compatível!

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Fer, muito, MUITO obrigada por dividir a sua história conosco! Lembro que quando nos conhecemos, ano passado, eu vi em você uma mega inspiração – afinal, estou “recém” completando 3 anos pós transplante de medula! É muito lindo ver alguém tão bem tantos anos depois de passar por tudo isso! E vida longa pra você e sua medulinha, que vocês tenham muitas aventuras pela frente!

 

Beijos e até semana que vem,

 

Flavi

 

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Uma resposta para “Histórias que Inspiram: Fernanda Lima”

  1. Nilva limamoreira disse:

    Sou mãe da Fernanda e quero falar da importância, nesse processo todo, dos doadores de sangue, pessoas (a maioria anônimos), que doaram o sangue que manteve a Fê viva até a medula dela (ou da Flá?) voltar a trabalhar. Foram inúmeros. Sem eles, essa história não teria final feliz. Eu sempre os incluo em minhas orações. Muitíssimo obrigada a todos! Que Deus os abençoe!

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