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Além do Cabelo
Câncer não é escolha. Bom humor é.

29.ago.2016

Histórias que Inspiram: Kátia Ekizian Tanielian

Por Flavia Maoli 1 Comentário

OBA OBA! Vamos começar essa semana com otimismo e motivação com mais uma das nossas Histórias que Inspiram? Hoje quem compartilha conosco é minha amiga Kátia, de Porto Alegre, que aos 38 anos encarou o câncer! Vamos lá?

 

“Em 2008 eu estava fazendo vários exames preparatórios para realizar minha cirurgia bariátrica – e, claro, estava super ansiosa para dar tudo certo! Minha expectativa era muito alta e nada podia me atrapalhar. Em uma dessas consultas com especialistas o médico me falou que pediria exames da tireoide. Foi quando comentei com ele que nunca havia tido problemas com ela, mas que dois anos antes havia feito um exame para ver do que se tratava um carocinho que surgiu no pescoço. Na época, a endocrinologista que avaliou aquele exame, feito em 2006, me disse que não existiam motivos para preocupação, que aquilo não era nada. Tendo lembrado disso, meu médico de então pediu para ver esse exame. Vendo o resultado daquele exame feito dois anos antes, ele pediu que o teste fosse refeito – pois qualquer nódulo na região da tireoide deveria ser acompanhado com atenção.

Com meu amor, 3 meses após a cirurgia - em outubro de 2008.

Com meu amor, 3 meses após a cirurgia – em outubro de 2008.

Comecei a ficar preocupada logo que terminei de fazer o novo exame, pois a médica que fez o procedimento foi muito enfática ao pedir que eu levasse o resultado ao meu especialista o quanto antes. Eu fiz isso, mas como estava num período de diversas consultas com diferentes especialistas por causa da cirurgia bariátrica, antes de ir ao endócrino de novo, tive uma consulta com o hematologista. Aproveitei a ocasião para mostrar o exame a ele. Aí fiquei preocupada de vez. Ele esqueceu todo o resto e só deu atenção àquele resultado. Saí do consultório dele e já liguei para uma amiga, que é médica, e me indicou um especialista de confiança. Passei o final de semana ansiosa e triste, pois já era certo que não poderia fazer a cirurgia que estava programada.

Na semana seguinte, fui à consulta e já recebi o diagnóstico de carcinoma papilar com variante folicular e metástase linfática. Foi então que começou a bateria de exames e procedimentos para saber que tipo de câncer era esse – eles sabiam que era na tireoide, mas não sabiam dizer qual tipo. Em meio a isso, ainda tive que conciliar a minha vida profissional, afetiva – estava casada há seis meses – e a reação da minha família. Até aquele momento, quase todas as pessoas que nós tínhamos conhecido e que tiveram câncer haviam morrido. Eu tinha 38 anos e era a primeira na família a ter câncer e devido às experiências anteriores da minha família com a doença, aquele diagnóstico estava muito próximo de uma sentença de morte.

Zil é meu parceiro, e me deu muito apoio nas fases mais difíceis!

Zil é meu parceiro, e me deu muito apoio nas fases mais difíceis!

Eu estava trabalhando com consultoria e viajava muito – minha carga horária de trabalho era alta e sobrecarregava a minha agenda. Foi um período muito estressante, no qual tive que mudar completamente a minha vida. Fui diminuindo o ritmo de trabalho até não aguentar mais e ter que parar. Aquela doença, até então desconhecida, me dava medo, me deixava assustada, sem saber o que pensar, como agir. Como podia a vida lá fora continuar normalmente, se eu estava com câncer?! Muitas vezes era isso que eu queria gritar, mas tive que aprender a lidar com a situação.

Entre o diagnóstico e a cirurgia, foram 56 dias de angústia. Os exames eram inconclusivos, não se sabia que tipo de câncer eu tinha, nem qual a extensão – dessa forma, não se poderia estipular um tratamento. Era tudo incerteza e, com esse panorama, o apoio da minha família foi ainda mais importante. Meu marido me ajudou ao seu jeito; tentava parecer forte e minimizar o problema, quando na verdade estava em pânico, como todos nós.

A cirurgia era bastante complicada, mas transcorreu tudo perfeitamente bem. Me mudei para casa dos meus pais nesse período para ter um cuidado mais próximo e ficar perto de onde fazia exames e consultas frequentes. O pós-operatório foi muito doloroso, fiquei sem movimentos da cabeça, ombros e parte dos braços, não podia levantar sozinha, nem tomar banho ou me vestir. Para uma mulher acostumada a ser independente e ativa, isso foi o caos. Passei muitos e muitos dias medicada e mesmo assim a dor não passava, não tinha posição confortável para sentar, era ruim para dormir, enfim, não dava para fazer nada. Fora a dor física, ainda tinha a instabilidade emocional. A tireoide é um órgão que regula hormônios importantes no organismo e por muito tempo fiquei exposta a esse desequilíbrio hormonal que me deixava fisicamente exausta e emocionalmente devastada. Sofria com insônia, tristeza, raiva e a angústia de não ter controle total dos movimentos ou da minha vontade. Precisava de ajuda para fazer tudo de mais simples como tomar banho, secar o cabelo, me maquiar, me vestir. Acredito que, por causa disso, me tornei muito descuidada com a aparência por um certo período e só me dei conta disso quando passei a me cuidar novamente.

 

Tive alguns problemas decorrentes da cirurgia, fiz dois anos de fisioterapia e um ano de tratamento com fonoaudiólogo para reaprender a usar a voz. Minha voz de soprano não existe mais, pois as cordas vocais foram afetadas pelo procedimento cirúrgico. Cantar era o meu grande prazer, um hobby que eu cultivava com muito carinho, uma das boas coisas da minha vida que mudaram após o câncer.

Após a cirurgia, veio a espera até que meu organismo estivesse pronto para a radioiodoterapia. Existem condições ideais às quais o corpo tem que chegar e o meu não respondia. Começaram novas baterias de exames semana após semana e nada do meu corpo estar pronto para receber a medicação. Quando reuni as condições necessárias, fiz o procedimento de radioiodoterapia, no qual precisei passar dois dias dentro de um quarto de chumbo e mais alguns dias afastada das outras pessoas. As reações físicas foram terríveis, eu não conseguia engolir nem a saliva, mas os médicos queriam que eu bebesse muito líquido. Estava com a boca machucada e com o esôfago com feridas, tinha muita dor nas mandíbulas, sofri bastante com isso. Graças à Deus, o cérebro da gente esquece das coisas. Às vezes parece que eu não consigo lembrar vividamente de toda a dor que eu senti e, quando tento parar para lembrar, nem acredito que fui forte o suficiente para passar por tudo aquilo e hoje estar aqui, bem.

Tive uma jornada muito intensa de tratamentos: fisioterapia, acupuntura, osteopatia, fonoaudiologia, psicoterapia. Encontrei muito apoio num grupo de pacientes que também estavam em tratamento ou já tinham estado, foi fundamental para ajudar a tocar a vida para frente, ver que você não é a única pessoa a passar pelo câncer, que tem muito mais gente, alguns em situação um pouco melhor, outros, pior. O importante é o apoio emocional, a parceria, a amizade, a cumplicidade. Ali, uma entende a outra mesmo. Não é como contar sua história para uma pessoa que não teve câncer. Quem não teve, pode se compadecer, pode tentar imaginar, mas nunca vai saber como é a doença mesmo.

Na clínica onde fiz meu tratamento, com uma das minhas amigas queridas do grupo ComVida.

Na clínica onde fiz meu tratamento, com uma das minhas amigas queridas do grupo ComVida.

Ter câncer me fez querer ser mãe e precisei ser paciente – pois tive que esperar 5 anos para poder tentar engravidar. Hoje tenho um menino lindo, que em janeiro deste ano completou 2 anos e este é meu maior legado. Há cinco meses fiz a sonhada cirurgia bariátrica, estou ótima e muito feliz.

Grávida do Enrico, em 2013.

Grávida do Enrico, em 2013.

A gente vai mudando gradualmente, não tem um dia em que a mudança simplesmente acontece. É olhar para trás e ver que eu era de um jeito e hoje sou de outro. Aprendi a dar valor ao que é realmente importante, por outro lado, me tornei uma pessoa mais intolerante às pequenas mazelas da vida. É impossível se compadecer de alguém que tem um probleminha simples do cotidiano, uma dor de cabeça, um contratempo… E me incomoda quando as pessoas fazem dessas coisas pequenas do dia a dia algo importante. Não é importante! A gente aprende a não reclamar de qualquer coisa.

Meus amores! <2

Meus amores! <2

 

Tem gente que se culpa por ter tido câncer. Não faço parte desse grupo, mas acredito que esse é um tipo de doença que se aproveita de certas portas que a gente abre para entrar. O tipo de vida corrida que eu levava, algumas mágoas guardadas… isso pode ter contribuído. Mas hoje, depois de tudo que se passou, acredito que tenha encontrado o meu ponto de equilíbrio. Estou dosando melhor as situações, meus pensamentos e sentimentos. Estou dosando a quantidade de horas que me dedico ao trabalho e me doando na medida em que posso, não mais do que as minhas possibilidades, como fazia antes. Posso afirmar que sou uma pessoa muito mais livre, muito mais relax. Não tenho que sair provando nada para ninguém, sou uma pessoa mais leve e mais solta.” 

 

Kátia, querida, muito obrigada por dividir conosco sua história! É muito inspirador saber que toda essa tempestade passa e a vida pode ser mais linda ainda!

 

Um beijo e até semana que vem,

 

Flavi

 

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Uma resposta para “Histórias que Inspiram: Kátia Ekizian Tanielian”

  1. Deborah Castro Abreu disse:

    Katia que bom compartilhar tua história. Isto nos torna mais esperançosos e ciente de que todos podemos e devemos nos apropriar de nossas vidas e ter consciência que é possível sair deste aprendizado ainda mais fortes e pessoas melhores.

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