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Além do Cabelo
Câncer não é escolha. Bom humor é.

19.set.2016

Histórias que Inspiram: Marina Roos Guthmann

Por Flavia Maoli Nenhum comentário , , ,

Sim, segunda-feira é dia de se inspirar aqui no blog! Quem divide sua história conosco hoje é Marina Roos Guthmann – uma amigona que o Linfoma me trouxe, e que tem muito mais influência na criação do Além do Cabelo e do Projeto Camaleão do que vocês podem imaginar: foi ela que fez nossos logos maravilhosos, incluindo a Mona-musa-carecosa! Sem mais delongas, com vocês: Ninão!

 

“Olar, migxs. Meu nome é Marina, mas vocês podem me chamar de Nina (ou Ninão, como a Flavi carinhosamente me chama). Morei maior parte da minha infância e adolescência em Guaporé (RS), mas me mudei para Porto Alegre para fazer faculdade e morei ali por muitos anos, e hoje vou contar um pouco da minha história com o câncer – que começou em 2006.

 

Eu tinha 16 anos na época, e estava curtindo as férias de verão com minha mãe e meu irmão (que tinha 17) na praia. Até então, eu achava que a pior coisa daquele verão tinha sido o show do Jota Quest no Planeta Atlântida, mas estava enganada. Um belo dia, do nada, sem dar nenhum sinal de que algo andava errado, minha mãe convulsionou. Era domingo e a gente tava sem celular, sem telefone, sem nada. Meu irmão, desesperado, saiu gritando por ajuda pela rua. Uma vizinha (que eu vou sempre considerar uma pessoa musa linda fodástica) nos ofereceu carona para o hospital, e partimos pro pronto socorro mais próximo.

 

Adolescente V1DA L0K4: eu fui!

Adolescente V1DA L0K4: eu fui!

Minha mãe foi imediatamente encaminhada para um hospital em Porto Alegre, e eu fui de ambulância com ela. Exames, médicos, enfermeiras e mais pessoas com olhos de vaquinha triste. Desvendado o mistério: minha mãe tinha um tumor no cérebro do tamanho de uma bola de bilhar. Depois da biópsia e retirada do tumor, veio o diagnóstico: Astrocitoma grau 3. Pensei “pronto, esse nome horrível, acho que fodeu”. Aí meu irmão e eu fomos pro Google – e o pensamento mudou pra “é, certeza que fodeu”.

Mas não fodeu não. Minha mãe teve que fazer quimioterapia oral e várias sessões de radioterapia, mas deu tudo certo. Dez anos depois ela está vivinha da silva, viajando, sem sequelas e com o câncer como uma lembrança de algo que aconteceu em outra vida.

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Minha mãe fodona, linda, poderosa e cancer survivor! <3

O diagnóstico da minha mãe me ajudou a destruir vários mitos que eu tinha em relação ao câncer. O principal é entender que o câncer não é uma sentença de morte. Muitas pessoas da minha cidade (que é pequena) acreditavam que minha mãe estava deitada numa cama de hospital, esquelética, esperando a caveira de preto vir buscar – quando na verdade ela estava passeando e fazendo compras no shopping. A quimio faz a pessoa se sentir mal (física e psicologicamente), mas é possível conviver com o tratamento e ser feliz nesse período. Também aprendi que nem toda quimio faz cair o cabelo – minha mãe fez um tratamento super pesado, mas que não fez cair um fio sequer! Essa vivência com minha mãe durante seu tratamento foi fundamental para me dar estrutura para encarar o que viria pela frente.

Anos depois, em 2013, eu tinha 23 anos e estava terminando meus estudos de Design na UFRGS. O ano de TCC é praticamente uma prova de sobrevivência: eu acordava, ia pro trabalho, voltava pra casa, comia qualquer coisa rápida, trabalhava no meu projeto de TCC até a madrugada, dormia pouco, acordava cansada, ia pro trabalho… Nessa época, comecei a sentir coceira pelo corpo, que a cada dia parecia piorar. Mas não era uma coceirinha qualquer – coçava PRA CARALHO, eu chegava a fazer feridas na pele! Eu estava tão ‘ocupada’ com meu trabalho, que achava que a coceira era por causa da pele seca ou por estresse – jamais imaginaria que poderia ser sintoma de algo mais grave.

Na época dessa foto eu já estava me coçando toda - e nem imaginava que esse corte ~ousado seria só o começo da minha mudança física.

Na época dessa foto eu já estava me coçando toda – e nem imaginava que esse corte ~ousado seria só o começo da minha mudança física.

No dia do aniversário do meu namorado, me dei uma folga dos estudos e fomos ao cinema. No meio do filme, coloquei a mão no pescoço e senti uma bolinha logo acima da clavícula. Opa! Aquilo me incomodou muito, nem consegui dormir de preocupação. No dia seguinte, fui ao pronto socorro com minha mãe – de novo, pessoas com olhos de vaquinha triste, enfermeiras, médicos, caos.
O médico plantonista disse que aquele linfonodo devia estar aumentado por causa de uma gripe ou algo assim. Ok, aceitamos a explicação. Mas três semana depois, aquela bola continuava ali – e crescendo. Fiquei tão íntima dela que dei até nome, chamava de Maurício.

O Rafa e eu namoramos desde 2008 <3

O Rafa e eu namoramos desde 2008 <3

Fui consultar com a minha gineco, e ela me aconselhou a procurar um médico de cabeça e pescoço (sinceramente, eu nem sabia que essa especialidade existia). Fui ao médico e ele imediatamente marcou a cirurgia de retirada do Maurício. A cirurgia foi com anestesia local, fiquei consciente o tempo todo. Perguntei pra enfermeira se eu era bonita por dentro. Ela disse que não. Fiquei triste. Maurício não queria desgrudar de mim e deu bastante trabalho. Talvez Maurício fosse um problema maior do que se imaginava. E era.
Semanas depois, veio o resultado da biópsia e o diagnóstico: Linfoma de Hodgkin. A primeira coisa que eu pensei foi “E o TCC ?!”. Mas aí a ficha caiu um pouquinho e eu pensei “Foda-se o TCC. Será que é disso que eu vou morrer? De Linfoma?” E, de repente, os olhos de vaquinha triste pertenciam a mim.

Claro que minha reação inicial foi de choque, desespero, de chorar soluçando. Mas, em seguida, fui tomada por uma sensação muito estranha. Uma sensação de alívio. Percebi que, pela primeira vez em anos, eu tinha um motivo (bem plausível, por sinal) para ficar em casa, descansar, ver seriados, coçar o saco sem que ninguém me julgasse. Sempre fui muito dedicada em tudo que fazia e vivia ocupada, estava sempre correndo. Imagine poder ficar em casa vendo tevê em plena terça-feira? Esse pensamento foi extremamente libertador – e comecei a ver aquele período da minha vida como uma oportunidade única de desacelerar e aproveitar meu tempo livre.

 

Dei uma pausa no trampo. Continuei fazendo o TCC, mas no meu ritmo – e os meses de tratamento foram bem tranquilos. Eu tinha 8 sessões de quimioterapia pela frente e aconteciam a cada 15 dias, sempre às sextas-feiras. Minha rotina nos dias de quimio era: acordar, comer algo, pegar o carro e buscar o Rafa (meu namorado) no trabalho, ir para o hospital e ficar no quartinho de quimio. Lá, eu e o Rafa comíamos várias guloseimas que ele sempre comprava na padaria e assistíamos uns dois ou três episódios de Breaking Bad. O dia de quimio era sagrado para nós: era dia de ficar juntinho, assistir séries e descansar. Descansar foi a palavra chave do meu tratamento. Eu descansava quando queria. Se alguém perguntasse porque diabos eu não podia sair ou fazer algo, eu tinha a desculpa mais perfeita do mundo “Tô cansada por causa da quimio, mals aí!”. Ninguém nunca tentou argumentar comigo.

 

Antes de começar a quimio, resolvi cortar o cabelo – até pra não sofrer tanto com o momento da queda. Pedi para minha amiga Clara marcar uma hora para mim com sua sogra, que é cabeleireira. Cortei o cabelo na casa deles mesmo – e aproveitei para testar um corte curtinho e pintar de vermelho. Também chamei outras amigas queridas, a Sara, a Paula e a Simone, para participar desse momento comigo. Pena que não tiramos fotos, só tenho essa mostrando o resultado.

 

Para algumas pessoas, a quimio pra Linfoma de Hodgkin faz o cabelo cair lentamente. Foi o meu caso. Depois da segunda quimio (indo pra terceira), meu cabelo começou a cair mais e resolvi experimentar um corte ainda mais curto – e adorei! Me achava super estilosa e fui até em uma formatura com ele assim.

Adorei esse corte curtinho.

 

Nessa mesma época, conheci a Flavis. Ela estava se formando em Arquitetura, e me proibiu de sequer COGITAR largar o TCC por causa da quimio!

Nessa mesma época, conheci a Flavis. Ela estava se formando em Arquitetura, e me proibiu de sequer COGITAR largar o TCC por causa da quimio!

 

No fim, fiquei todo o tratamento com cabelo – até consegui tirar as fotos para minha formatura com cabelo! 

 

Última sessão de quimio com o Rafa. Olha a gente dando tchauzinho pro saquinho da quimio.

 

Era dia 6 de dezembro de 2013, um dia antes do aniversário da minha mamis. Rafa e eu fomos pegar o resultado do meu PET-CT pós tratamento e seguimos para o oncologista. Não aguentei a curiosidade e abri o envelopinho. Ali estava escrito: 

“Estudo realizado para avaliação de resposta a quimioterapia mostra regressão metabólica completa e anatômica das linfonodomegalias cervicais inferiores/ supraclaviculares e mediastinais descritas no estudo basal”.
Quando lemos aquilo, Rafa e eu nos olhamos e… acho que só um GIF pode descrever a sensação que tivemos:

 

 

Nos abraçamos e eu só conseguia chorar sorrindo. Marina 1 x 0 Linfoma. Eu ainda tinha algumas sessões de radioterapia por fazer, mas foda-se. O pior já tinha passado e eu tinha uma grande vitória para comemorar e um presentão de aniversário para dar pra minha mamis. Liguei pra ela e disse “Mãe, tô em remissão! Sou eu que mando aqui nessa porra! Te amo!”.

E a família ficou tipo IEI!

E a família ficou tipo IEI!

Eu não tornei meu câncer tão público assim e não era todo mundo que sabia que eu estava em tratamento. Quando a quimioterapia terminou, eu ainda estava com cabelo. Só fui raspar a cabeça quando vi que o cabelo estava mais duro que uma palha de aço – mas a essa altura eu já estava em remissão. Em outras palavras, fiquei careca quando já estava sem câncer. E, por estar careca, foi quando as pessoas começaram a me perguntar o que tinha acontecido e a me mandar mensagens de apoio. Ninguém acreditava no que eu falava, como alguém pode estar sem câncer e estar careca? Ai céus.

 

Namorado parceiro é aquele que ajuda a raspar o cabelinho - aliás, aguentou firme esse cabelo, hein?

Namorado parceiro é aquele que ajuda a raspar o cabelinho – aliás, aguentou firme esse cabelo, hein?

 

Eu no concerto de

Eu no concerto de piano da minha mãe – carecosa e musa!

 

Era verão em Porto Alegre, um calor desgraçado e não conseguia usar lenço sem começar a suar a careca. Quer saber? Assumi a careca. Comecei a só sair careca e me senti muito estilosa. Me inspirava muito na Amber Rose (valeu Flavi pela referência aqui no blog!) e comecei a usar colares e outros acessórios.

Terminei meu TCC, recebi nota A pelo meu projeto e ganhei alguns prêmios meses mais tarde. Colei grau com meus colegas e fiquei mais louca que o Bozo na minha festa de formatura! 

Dá pra ver que aproveitei minha festa, né?

Dá pra ver que aproveitei minha festa, né?

 

Toda toda recebendo prêmios pelo meu TCC.

Toda toda recebendo prêmios pelo meu TCC.

Pode parecer estranho falar isso, mas o Linfoma me abriu portas para conhecer pessoas maravilhosas como a Flavi e a Joy. Além disso me fez repensar várias escolhas da minha vida. Por que mesmo eu trabalho tanto? Eu sou realmente feliz fazendo isso?

Quando a Joy veio pra Porto Alegre, brincamos de Panteras no salão de beleza.

Quando a Joy veio pra Porto Alegre, brincamos de Panteras no salão de beleza.

 

Depois da minha formatura e do fim da radioterapia, eu comecei a pensar em tentar um Mestrado no exterior. Nesse meio tempo, voltei a trabalhar e meu cabelo começou a crescer.

No começo, tive uns cachinhos muito loucos, típico do cabelo pós quimio.

No começo, tive uns cachinhos muito loucos, típico do cabelo pós quimio.

 

Eu sempre quis estudar no exterior e me tornar fluente em inglês. Essa minha decisão veio de questionamentos que tive durante o meu tratamento. Se eu quero fazer algo, por que eu tenho que esperar? Esperar pelo quê? O momento certo é o momento que a gente escolhe.

Apliquei para Mestrado no final de 2014, recebi a resposta que fui aceita em julho de 2015. Atualmente estou morando na cidade de Baltimore (EUA) e faço mestrado em Graphic Design na MICA (Maryland Institute College of Arts). Esse ano, passei minhas férias de julho (summer break) fazendo estágio em Nova York e foi uma experiência maravilhosa. Depois o Rafa me encontrou lá e passamos o resto das minhas férias passeando. Foi uma viagem inesquecível.

Rafa e eu em NYC - é foda ficar longe fisicamente.

Rafa e eu em NYC – é foda ficar longe fisicamente…

 

... mas quando a gente tá junto, tudo faz sentido.

… mas quando a gente tá junto, tudo faz sentido.

Se há males que vem para o bem, posso considerar que o Linfoma foi um deles. Por causa dele fiz uma tatuagem para me lembrar que a vida é finita, que para morrer basta estar vivo, e todos vamos morrer. Leram? T-O-D-O-S. Pode ser ou não de câncer, pode ser ou não idoso, pode ser amanhã ou daqui algumas décadas, não importa. A morte é a única certeza que temos. Então, bora viver?

Carrego no braço uma tattoo que me faz lembrar da minha finitude, pra eu nunca mais fazer a besteira de não curtir a vida.

Carrego no braço uma tattoo que me faz lembrar da minha finitude, pra eu nunca mais fazer a besteira de ter medo de arriscar ou não curtir a vida.

 

 

Ninão, muito, muiiiiiiiiiiiiiito obri por dividir com a gente a sua história! A Marina é uma das pessoas que eu conheço que melhor liga o FODA-SE – e aprendi muito com ela sobre desapegar, curtir o momento e dar risada. <3

 

Gostaram? Semana que vem tem mais, 

 

Beijos, 

 

Flavi

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