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Além do Cabelo
Câncer não é escolha. Bom humor é.

19.jan.2015

Márcia Cabrita e a Mulher Maravilha

Por Flavia Maoli 2 Comentários , , , ,

Esses dias eu estava vendo tevê, quando vi a atriz Márcia Cabrita – não lembro do programa, especificamente. Lembrei que Márcia havia tido câncer, mas não lembrava qual tipo, em que ano,  nada.

Pesquisando na internet, descobri que Márcia foi diagnosticada com câncer de ovário em março de 2010 e entrou em remissão ao final do mesmo ano. Depois disso, as informações são meio confusas, alguns sites falam que ela fez mais quimios em 2013, outros dizem que ela está ótima… enfim, whatever – espero que ela esteja ótima e feliz! 

Márcia em 2010

Márcia durante as quimios, em 2010.

marcia-cabrita-roberto-filho-agnews

Márcia em 2014.

Nessa pesquisa, descobri que, na época em que estava em tratamento, Márcia escreveu um blog. Segundo ela  ” O blog fez sucesso porque eu fugia dos clichês, do senso comum. Não virei santa e falo sobre a experiência sem drama, sem heroísmo, não tem nada disso, não sou heroína e a cura não foi um milagre, me tire dessa. Acho uma chatice.” 

Quem quiser acessar o blog da Márcia Cabrita, clique aqui! Mas já aviso: a postagem mais recente é de 2011!

Me identifiquei tanto com esse estilo “sem mimimi” dela, que acabei lendo o blog de cabo a rabo! O texto mais recente exibido no blog é o que reproduzo abaixo – e que achei o máximo!

 

 

Eu fiquei gravemente doente. Ao contrário do que muitos fantasiam, não tirei de letra. Não sei o porquê, mas existe uma idéia estapafúrdia de que quem está com câncer tem que, pelo menos parecer herói. Nãnanina não! Quem recebe uma notícia dessas não consegue ter pensamentos belos. Bem… eu não conseguia.

A cobrança de positividade acabou se tornando um problema. Me olhava no espelho branca, magrela e de cabelos curtinhos (antes de caírem) e me achava pronta para fazer figuração na Lista de Shindler. Achava que não tinha chance de sobreviver à cirurgia, só pessoas que não tinham maus pensamentos sobreviviam. Muitas vezes deixei de comprar coisas para mim porque tinha que deixar tudo para minha filha. Bem, se na minha cabeça era esse o pensamento que reinava … Sem chance.

O mundo moderno é incrível. Tudo é maravilhoso, não existe sofrimento! As separações são sempre amigáveis e sem lágrimas, as mães não tem mais o direito de embarangar e ficar em casa lambendo a cria. Um mês depois estão lindas, magras, com barriga sarada! Os atores não ficam desempregados, estão sempre felizes com um convite que ainda não pode ser revelado! Quimioterapia é moleza! Vem cá, só eu que não moro na Disney?

Hoje percebo que precisei viver esse luto. Ele passou, apesar do medo fui confiante para o hospital. Mas outras angústias vieram. Sofri pelo que é “o de menos”, chorei pelos cabelos, pelas sobrancelhas, pelos cílios e pelo … resto que vocês sabem. Chorei pelas dores , enjôos, injeções e tudo mais. Eu me dei esse direito. Eu me dei o direito de ser humana.

A Mulher Maravilha mora na televisão, eu moro na Gávea mesmo. A Mulher Maravilha dá aquela giro e sai linda e poderosa correndo para salvar pessoas. Se eu fizesse a mesma coisa cairia estabacada com a careca no chão. Então meu giro foi bem devagarzinho segurando na mão de minha mãe, de minha irmã e de meus queridos amigos e familiares. Girei amparada por dr Eduardo Bandeira, por Virginia Portas, dr Celso Portela e todos enfermeiros e profissionais de medicina que foram simplesmente maravilhosos comigo. Girei rindo e chorando com centenas de comentários no meu blog onde eu virei praticamente uma conselheira oncológica. Girei brincando com minha filha que fez questão de ir para escola de lenço na cabeça “igual a mamãe porque é muito legal”. Girei para salvar a mim mesma.

Sinceramente, não acredito em uma seleção divina. Muitas pessoas bacanas e crianças morrem e isso não é nem um pouquinho justo. Acho um saco quando dizem “ Fulano perdeu a batalha contra o câncer” , “Fulana tem tanta vontade e alegria de viver que foi salva”ou “ O amor por meus filhos me salvou”. Me parece tremendamente injusto.

Quer dizer que quem morre não amava a vida? O amor pelos filhos não era grande o suficiente? A fé foi pouca? Pensamento bem cruel, não é mesmo? E é uma coisa bem esquisita, isso só acontece com o câncer, a única doença tão estigmatizada. Ninguém diz que alguém perdeu a batalha para o enfarte, nem que amava tanto a vida que ficou bom da tuberculose.

Re-mis-são. Estou em remissão. Quem não apresenta mais sinais da doença pelo corpo não pode sair correndo gritando que está curada, então saio correndo e gritando que estou em remissão!!! Eba! Remissão é muito bom!!
Vi uma foto minha na internet com meus companheiros de Subversões Aloísio e Salem em que estou com um largo sorriso. Eu estava verdadeiramente feliz. Sem a pílula da felicidade, sem fingir meus sentimentos, sem bancar a maravilhosa. Era eu simplesmente feliz.

E agora … chega desse assunto! Eu sou atriz e tô mais preocupada com o um convite que não pode ser revelado.

 

Apesar de ser muito a favor do otimismo e do bom humor sempre que possível, concordo: é preciso sim viver esse luto do câncer. É um luto por nós mesmos, um período que tem suas peculiaridades, que deve ser respeitado (mas não alimentado!) e que felizmente passa. Além disso, também acho que é cruel dividir as pessoas como as que “venceram o câncer” ou as que “perderam a batalha para o câncer”. Vocês não acham?

Bom, vou ficando por aqui por hoje! Não esqueçam que amanhã tem dicas da nutri! 🙂

 

Beijos,

 

Flavia

 

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2 respostas para “Márcia Cabrita e a Mulher Maravilha”

  1. Rose Valente disse:

    Flavia,
    Eu conheço o blog da Marcia Cabrita e ele me ajudou muito.
    Isso mesmo, bate um sentimento de culpa nas pessoas e elas ficam querendo te tratar “minmim”, quando antes não era assim. Sofri uma traição na empresa onde trabalhei por 15 anos e tive o diagnostico de câncer metastático 4 anos depois. A fila de pessoas da empresa que enviam recados dizendo: ” não tive nada a ver com sua saída”, esta dando voltas na esquina. Aprendi a ser irônica e respondo: fique tranquilo (a), não vou puxar seu pé, caso eu morra antes de você…. E aprendi algo muito valioso: pessoas que não suportavam seu sucesso, passam a te amar e são fofas quando te veem com câncer, careca, sofrendo. Definição de inveja melhor não há. Amar alguém é amá-la, mesmo no sucesso.
    bj,
    Rose

  2. Alice de Moraes Falleiro disse:

    Baaaah, concordo com cada palavra da Márcia Cabrita. Vou correr e olhar o blog dela! Boa Flávia! Beijos

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