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Além do Cabelo
Câncer não é escolha. Bom humor é.

13.fev.2017

Sobre câncer, turbantes e apropriação cultural

Por Flavia Maoli 7 Comentários , , , , , , , , ,

Eu jurei pra mim mesma que eu ia ficar quietinha e não ia caçar treta. Mas nos últimos dias li tanta merda sobre o caso da menina branca de turbante que não me aguentei e vim escrever aqui. Li muita bobagem dos dois lados – tanto de quem acha que pessoas que não são de alguma origem onde o turbante é um símbolo cultural  (cultura negra, muçulmana, hindu, etc) quanto de quem acha que apropriação cultural é mimimi. Eu entendo os dois lados. Se tem algo que o câncer me ensinou, foi a ser mais empática com os outros, e a aprender a (tentar) me colocar no lugar dos outros – digo (tentar) porque ninguém além de nós mesmos sabe o que é ser a gente. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é – e mais ninguém.

 

 

Se você não está por dentro do assunto, dá uma lida aqui.

Você já perdeu os cabelos? Você já foi forçado a ficar careca do dia pra noite, sem ser escolha sua? Você já perdeu cílios, sobrancelhas e todos os outros pelos do corpo? Você já foi obrigado a ouvir um longo discurso de uma pessoa que você nem conhece sobre como “você deixou a doença entrar” ou dicas de uma cura milagrosa que você deveria tentar – sendo que você nem perguntou nada? Você já se sentiu pelado ao sair na rua careca, porque até mesmo míseros 2 milímetros de cabelo fazem uma diferença danada na sua percepção corporal? Então você também não sabe o que é ficar careca por causa do câncer – assim como eu nunca vou saber como é ser negra, ou como é ser homem, ou como é ser qualquer outra pessoa além de mim mesma.

Nessa discussão toda, li até que a menina inventou tudo isso e que nem aconteceu nada. Também não estou aqui para averiguar os detalhes, ou defender essa menina em específico (que eu nem conheço). O que eu achei interessante é que a polêmica causada por essa notícia  levantou um debate que até então nunca tinha sido feito.

 

Uma pessoa com câncer que resolver usar um turbante está se apropriando da cultura alheia?

 

Isso me lembrou uma situação que aconteceu comigo em 2014, quando o blog estava apenas começando. Naquela época, ainda eram poucas as pessoas que se deixavam fotografar durante o tratamento contra o câncer – sim, faz só 3 anos, mas pro estigma que há em relação à doença, esses últimos anos foram revolucionários. Eu estava começando esse meu trabalho, e buscava imagens de mulheres – carecas, de lenço, de cabeça raspada, etc – para servir de inspiração para quem estava em tratamento.

Obviamente, a maioria das imagens que eu encontrava eram de pessoas que não tinham câncer – afinal, onde já se viu querer relacionar câncer com autoestima, beleza ou moda?! Então, até hoje, se você entrar no nosso Pinterest, muitas das imagens de inspiração não são com pacientes, apesar de já termos alguns exemplos de editoriais de moda para quem está com câncer – e eu tenho muito orgulho de ter participado como modelo e/ou  ter encorajado outras pacientes a fazê-los.

Eu e um dos meus (vááááááários) turbantes durante meu segundo tratamento contra o câncer, em 2013.

Aí estava eu, procurando por “turbante”, “turban”, “lenço”, “headscarf” quando encontrei a foto de uma menina usando um turbante e uma maquiagem incríveis! Salvei a foto no Pinterest e imediatamente compartilhei no nosso Instagram e Facebook, com a ideia de inspirar as seguidoras.

Algumas horas depois, fui surpreendida com um comentário da menina da foto (que eu nem sabia quem era, porque né, internet) dizendo “Por favor remova minha foto. Eu não tenho câncer e cubro minha cabeça por motivos religiosos. Isso é doente.”

 

 

Cara, aquele “This is sick” me ferveu o sangue. Sick, além de “doente”, significa algo do tipo “bizarro”, na gíria. E a última coisa que uma pessoa que está doente quer é ler alguém usando uma expressão que relaciona doença com bizarrice, ainda mais quando você tem a melhor das intenções e não queria ofender ninguém. Fiquei extremamente chateada com a situação.

 

Minha resposta foi “Desculpa se te ofendemos. Iremos remover sua foto, apesar de que nós a compartilhamos para inspirar pessoas que estão lutando contra o câncer, mas eu tenho certeza que Deus te perdoará.”

A discussão se prolongou um pouco – ela argumentou que eu deveria pedir licença antes de compartilhar a foto dos outros; eu disse que não tinha como saber quem era a moça da foto, que não tinha stalkeado ela e que, se ela não queria sua foto sendo compartilhada, deveria conversar com a galera do Pinterest. Enfim, salvei os prints, deletei a foto e assunto encerrado.

 

Mas agora essa questão de uma menina branca com câncer usar um turbante me reacendeu esse assunto.

 

Quando as mulheres do movimento Afroculture foram no programa Encontro com Fátima Bernardes  falar sobre o trabalho bacana que fazem de reforço de autoestima de pessoas negras, então foi errado elas amarrarem um turbante na apresentadora e outras convidadas (brancas)? E essa não foi a primeira vez – em 2014 os turbantes e a cultura negra também foram pauta no programa no Dia da Consciência Negra, além da Fátima ter virado meme lutando capoeira em outra pauta. 

 

Tá errado? Fica a pergunta.

 

Quanto ao câncer, pra começo de conversa: a pessoa que está em tratamento contra o câncer não está usando um turbante porque quer se apropriar da cultura de ninguém. Aliás, a pessoa não queria nem ter que se preocupar em usar qualquer tipo de acessório na cabeça.

Acontece que os lenços são práticos, baratos, confortáveis, fresquinhos e bonitos – combinam perfeitamente com nosso clima tropical escaldante. E amarrá-los como um turbante é fácil (ou usar um turbante pronto, mais prático ainda!). Nem todo mundo quer sair careca na rua, nem todo mundo se sente bonita de boné ou chapéu, nem todo mundo tem grana pra comprar uma peruca (sem falar que não é a coisa mais confortável do mundo e é quente pra caramba no verão!).

Além disso, as pessoas em tratamento contra o câncer não cobrem a cabeça porque não querem ser vistas carecas – a pele do couro cabeludo é muito sensível (porque sempre foi coberta e protegida pelo cabelo) e queima facilmente. Muitos tipos de quimioterapia aumentam a fotossensibilidade e o risco de câncer de pele – ou seja, nem sempre desfilar a carequinha por aí é permitido ou uma boa ideia.

E, por último, qualquer pessoa com câncer preferiria muito, muito, muito, muiiiiiiiiiiiiiito mais não ter tido câncer – ou, ao menos não, ter perdido os cabelos, do que se apropriar da cultura de alguém.

Eu preferia não ter tido câncer, nem uma nem duas vezes. Mas já que eu tive, resolvi fazer disso um trampolim para mudar minha vida e a de outras pessoas.

 

Se eu me apropriei da cultura de alguém ao amarrar um turbante, então eu gostaria, do fundo do coração, de agradecer a essa cultura – e dizer o quanto esses tecidos lindamente coloridos elevaram minha autoestima durante os momentos mais difíceis da minha vida. 

Não é fácil você se olhar no espelho e não se enxergar – e os lenços, as perucas e os turbantes me ajudaram a brincar com minha autoimagem, variar o visual, desconstruir quem eu era antes de ser diagnosticada e tornar uma situação de merda em uma oportunidade de me redescobrir.

Felizmente, a medicina vem avançando à galope, e cada vez mais surgem medicações que não fazem o cabelo cair (e não estragam tanto o corpo pra combater os tumores). Em um futuro próximo, ninguém na rua vai saber se você está com câncer, porque você quase não vai ter mudanças físicas – e isso com certeza vai mudar a maneira como as pessoas lidam com a doença. Mas, enquanto houver quimioterapia que faz o cabelo cair eu digo que sim: vai ter paciente usando lenço, turbante, boné, peruca e o que mais for necessário para se proteger e elevar a autoestima.

 

 

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7 respostas para “Sobre câncer, turbantes e apropriação cultural”

  1. Nimya Coelho disse:

    Para você e esse texto apenas aplausos!!! 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽

  2. Jaqueline Correia disse:

    Gostei mesmo do seu texto… apenas queria referir que a menina da foto foi mal interpretada(o que ñ justifica nada querer retirar a foto), quando ela diz q cobre o cabelo por motivos religiosos, o “this is sick” se refere a religião, o sickhismo. O meu marido é sick também, embora ñ cubra o cabelo, mas…enfim, ela poderia ter explicado melhor. Também estou em tratamento e me sinto ótima c esses acessórios.

  3. Érica Ellen disse:

    Menina, amei o seu post! Cortei todo o meu cabelo para ficar com ele natural e vivo usando turbantes. Seu relato me ajudou muito! ❤

  4. alexsandre da silva disse:

    bem, eu tenho uma consideração sobre o assunto, eu sou negro e nunca usei turbantes por que não achei resolvi pedir pra minha madrinha costureira fazer e tava procurando como combinar e topei aqui sem querer eu vou tentar sintetizar um outro comentário que acabei de fazer, mas alterando um pouco por que aqui é mais delicado e tem a questão de a pessoa, como você citou no resto não quer precisar usar nada

    o problema não é usar o turbante, o problema é que as vezes você tá procurando como combinar e topa em um blog como esse e só tem gente branca de turbante nas fotos, SÓ TEM GENTE BRANCA, esse é o problema, a moda pega o turbante e torna ele APENAS um artigo da moda, o que não é, pra muita gente na africa tem um significado religioso, aqui isso quase não importa mais, no brasil isso perdeu o sentido religioso, mas usar cachos, usar turbantes choca, por que a sociedade quer tirar nossa identidade e nós não deixamos isso, o turbante ganha um simbolo de luta, assim como os cachos
    o grande problema é que quando você torna o turbante um simbolo de moda, quando usar turbante se torna legal e pronto, é legal e só isso, todo mundo usa e a moda, a sociedade lentamente apaga a imagem do negro de turbante
    vou dar um exemplo: algumas religiões de matriz africana ainda adotam o uso de turbante por motivos religiosos e culturais, se uma mulher negra, aparece com um turbante na rua ela é macumbeira, se uma mulher branca aparece com um turbante na rua ela ta na moda
    dentro do mesmo exemplo temos os dreads e as tranças de raiz (conhecidas como nagô) se uma branca aparece com uma ela é a legalzona do role, mas se uma pessoa negra aparece é sujo, não toma banho, não lava o cabelo e tudo isso
    é uma questão de apagamento, o que nós queremos não é que vocês não usem, o que nós queremos é que vocês entendam o significado, por que ao entender tenho certeza que raríssimos casos vocês vão usar
    no caso de um evento onde a pessoa explica isso que eu to dizendo aqui e ela faz a amarração é um exemplo de que não queremos que vocês queimem seus turbantes, só que vocês tenham o entendimento disso
    agora a questão da doença que eu não entendo, mas tenho alguma noção, assim como você não entende ser negro, eu tenho uma noção por que mesmo sendo homem eu nunca gostei de cabelo curto, sempre me senti mal tendo, me sentia frágil sem cabelo (já não corto a um ano e alguns meses e já me sinto bem), a luta contra o cancer tem a mesma simbologia de uma luta por viver todos os dias dignamente então, uma pessoa que teve cancer assim como todas as pessoas negras entende o que é lutar
    agora por que nós não acreditamos que alguém chegou e quase arrancou o turbante dela
    apropriação cultural não é um debate comum nem no meio da militância negra se eu só procurasse informação na minha cidade eu não teria opinião sobre esse tema, então se menos de 10% (um numero bem chutado na verdade) tem noção do tema apropriação cultural é bem irreal pensar que justamente uma moça desse numero diminuto chegou e pediu pra ela tirar o turbante, mesmo que tivesse acontecido tenho certeza que se a moça branca falasse “eu tenho câncer” a outra entenderia, e nós questionamos por que nos questionam também, quando chegamos em uma delegacia e denunciamos racismo a pergunta é “você tem certeza?” é errado questionar a moça diretamente, ela vai se sentir mal, como nós nos sentimos, porem quando eu chego e falo “ela deve tá mentindo” eu to mudando o foco pra o que acontece com nós, sempre que vamos denunciar

    • Flavia Maoli Flavia Maoli disse:

      Olá, Alexsandre

      Obrigada por expor sua opinião. Sim, concordo que ainda há muito sobre racismo para se debater e se destruir, e entendo o posicionamento. Mas quanto a só ter gente branca de turbante aqui no blog, isso não é verdade. Se você ler o blog com calma, vai ver que há muitas fotos de mulheres brancas, negras e orientais de turbante. Talvez você tenha visto as minhas fotos de turbante, já que eu me disponho a ensinar amarrações e eu sou branca. Mas as referências que busco pro blog trazem pessoas de diversos tons de pele, e minha maior preocupação é encontrar referências legais de lenços e turbantes, já que o meu foco é trabalhar a autoestima de pessoas com câncer, independentemente do tom da pele. Abraços, Flavia

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