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Além do Cabelo
Câncer não é escolha. Bom humor é.

24.out.2016

Sobre encontros, trocas e despedidas

Por Flavia Maoli Nenhum comentário

Muita gente me pergunta como eu consigo trabalhar com pacientes com câncer depois de ter passado por dois diagnósticos. Em geral, essa pergunta entra por um ouvido e sai pelo outro – afinal, felizmente a maioria das pessoas que conheço por causa do câncer estão super bem, esbanjando saúde pós tratamento ou encarando essa fase da melhor maneira possível. E é muito gratificante saber que eu consegui ajudá-las a viver essa etapa de forma mais leve e positiva. Mas, às vezes, a realidade não é tão agradável.

Quinta-feira eu estava no supermercado  quando recebi uma mensagem pelo whatsapp. “Flavinha, a Ju morreu hoje.” Minha primeira reação foi ficar parada, em estado de choque. A Ju não tinha muito mais do que trinta anos, e fomos apresentadas por uma amiga em comum em outubro do ano passado. Ela recém tinha descoberto uma recidiva – e nossa amiga me pediu pra dar um help nessa fase inicial, já que dessa vez ela iria perder os cabelos (no primeiro tratamento isso não tinha acontecido). Conversamos, trocamos ideias e ela participou da edição seguinte do Projeto Camaleão, em dezembro do ano passado. Uma pessoa muito doce, daquelas que dá vontade de passar a tarde toda conversando. Sim, eu sabia que o caso dela era grave e que ela não andava 100% – mas não esperava que as coisas fossem se desenrolar tão rápido. Tomamos um café há umas três semanas e ela me pareceu bem, apesar de tudo. Aliás, ela estava bem – feliz com o namorido, com o cachorrinho, otimista de que o tratamento fosse dar uma aliviada em breve, para ela poder voltar a trabalhar.

Fiquei parada, anestesiada entre as prateleiras do supermercado. Me apoiei no carrinho de compras como se fosse uma bengala, e fiquei percorrendo os corredores, digerindo a informação. Cara, como assim ela não está mais aqui? Ela é tão jovem, tão cheia de planos… Isso é muito injusto! E não tem nada que eu possa fazer pra mudar essa realidade. É claro que, em momentos como esse, eu me questiono: por que eu trabalho com isso? É tão difícil ver as pessoas sofrendo, é tão angustiante se sentir impotente diante de uma doença traiçoeira como o câncer. Me abala não só como pessoa, mas como ex-paciente também. Podia ter sido comigo, podia ser eu ali. Será que isso vai acontecer comigo também? Quantas amigas eu vou ver partirem? É muito cansativo.

Sim, eu poderia largar tudo o que venho construindo há mais de três anos, desde que comecei o blog. Poderia ir trabalhar com arquitetura, abrir um escritório. Ou poderia realmente largar tudo e ir morar em Portugal, achar um emprego lá e viver tranquila. Seria mais fácil não ter que encarar a ideia da morte com uma certa frequência. Seria mais fácil lidar apenas com pessoas que não estão enfrentando uma dificuldade dessas, as que nunca tomaram consciência de sua finitude. Aí eu lembro de uma história que realmente me tocou – e que me fez começar a mudar o rumo da minha vida.

Era maio ou junho de 2012, não lembro bem. Fazia apenas alguns meses que eu tinha acabado meu primeiro tratamento – estava curtindo a vida, o cabelinho novo, a sensação de “eu sobrevivi” que a gente tem nessa fase. Entrei no Facebook e vi que alguns amigos estavam compartilhando a foto de uma menina que foi nossa colega de colégio, a qual eu não via nem tinha notícias há muitos anos. Chamei um desses amigos no chat e perguntei o que tinha acontecido. “Ela morreu.” Perguntei de quê. “De Linfoma”.

Eu estava na faculdade, na aula de atelier de projeto. Li a mensagem e saí direto para o banheiro. Sentei no vaso sanitário e caí no choro, daqueles de ficar sem ar de tanto soluçar. É claro que esse choro tinha muito mais a ver comigo mesma do que com ela – fazia muitos anos que a gente não se via, e nunca fomos melhores amigas, apesar de nos darmos bem. Podia ser comigo, podia ser eu ali. Eu, que tinha encarado o Linfoma como se fosse gripe (afinal, as chances de cura são altíssimas). Demorei algum tempo pra me recuperar e voltei pra aula.

Nas semanas seguintes, amigos ainda prestavam homenagens a ela – e eu fui tomando coragem pra perguntar sobre seu caso. Descobri que ela, quando descobriu que estava doente, ficou muito deprimida. Viu o câncer como uma sentença de morte, como um destino cruel que a arrancou de seus planos e juventude. Amigos disseram que tentavam animá-la, mas ela se sentia sozinha e incompreendida. Perguntei porquê ninguém me falou sobre ela estar com Linfoma – eu certamente teria ido atrás dela, nem que fosse pra dizer “Olha, eu também passei por isso e estou aqui! Você vai conseguir”. Meus amigos disseram que não sabiam se eu queria falar sobre isso, que tinham medo que eu me ofendesse ou ficasse muito abalada em saber que outra menina da minha idade estava doente.

Mas eu queria falar, eu queria ajudar. Eu não sabia como, mas queria. Talvez conversar comigo não fosse mudar o rumo de sua história – mas podia ajudá-la a viver melhor durante seu tratamento. Talvez essa troca de experiências a fizesse ver que ela tinha sim o direito de ser feliz, com ou sem câncer, com ou sem chances de cura. Mas ninguém me avisou que ela estava doente, e quando soube de sua morte, me senti impotente. Me senti egoísta. Me senti em dívida.

Menos de um ano depois, descobri que eu estava em recidiva. O medo de morrer foi sufocado pela vontade de seguir vivendo, e eu resolvi começar esse blog pra dividir dicas, ajudar as pessoas e me ajudar. O resto vocês já sabem: o Além do Cabelo cresceu, o Projeto Camaleão surgiu e hoje minha vida é dedicada a fazer as pessoas enxergarem o câncer e seu tratamento com outros olhos. Não só porque atualmente temos grandes chances de cura – mas porque eu acredito que todo mundo tem direito a ser o mais feliz possível até o fim, independente se o fim será amanhã ou daqui a 80 anos.

E aí voltamos à semana passada, no velório da Ju. Eu estava me sentindo pesada, cansada, triste. Comecei a me questionar qual a beleza de um trabalho que me faz, de vez em quando, encarar situações tão tensas e desafiadoras como ver uma jovem morrer de câncer. Fui ao velório, e chegando lá percebi que foi a primeira vez que compareci a um. Talvez agora, mais de três anos depois do transplante, eu consiga encarar um pouco mais de perto essa ideia de finitude. Fui dar meus pêsames ao namorado da Ju, que conheci na mesma noite em que saí pra conversar com ela a primeira vez. Ele me abraçou e disse “Obrigado por tudo, mesmo. Te conhecer e participar do Projeto Camaleão ajudou muito a Ju a encarar melhor o tratamento. Valeu, de coração.” Agradeci mais com os olhos do que com palavras e comecei a chorar.

Ao contrário daquele choro no banheiro da faculdade em 2012, esse não foi de impotência nem de raiva: foi um choro de gratidão. Gratidão por poder ajudar as pessoas a viverem melhor, a curtir a vida, a encontrar a felicidade apesar do câncer. Olhei mais um pouquinho pra ela, tive aquela vontade de dizer “Ei, amiga, acorda! Tem uma galera aqui que veio te ver!” Ver pessoas que a gente gosta e admira partirem tão cedo é triste, pesado e desconfortável – mas é infinitamente mais tranquilizador saber que eu ajudei um pouquinho, do que o remorso de ter apenas me poupado de encarar a realidade.

 

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