a mediana não é a mensagem

Como comentei dia desses, estou relendo o livro Anticâncer. Esse livro é tão, tão legal, que tem vários assuntos que quero expor aqui no blog. Prometo que não vou transcrever o livro todo – mas provavelmente mostre boa parte dele aqui! Hoje quero mostrar a história de Stephen Jay Gould, mostrada no capítulo 2 “Fugir das estatísticas“.

American Paleontologist Stephen GouldStephen Jay Gould é o senhor da foto ao lado. Professor de zoologia na Universidade de Harvard, especialista em teoria da evolução, Gould é considerado por muitos o “segundo Darwin” por ter desenvolvido um trabalho mais completo sobre a evolução das espécies.

Em julho de 1982, aos 40 anos, Stephen recebeu um diagnóstico de mesotelioma do abdome – um tipo de câncer raro e grave, atribuído à exposição ao amianto. Querendo saber mais sobre sua própria doença, ele pediu à sua médica para lhe indicar os melhores artigos científicos sobre mesotelioma. Apesar de ter sido sempre muito direta, a oncologista respondeu que a literatura médica não tinha nada de verdadeiramente valioso sobre o assunto. Só que né, Gould era um pesquisador, e impedi-lo de buscar mais informações sobre o assunto era, como dizia o próprio Gould “recomendar a castidade ao Homo sapiens, de todos os primatas o mais interessado em sexo.”

Stephen foi para a biblioteca médica do campus e se instalou em uma mesa com uma pilha de revistas recentes. Uma hora mais tarde, ele entendeu apavorado a causa da atitude de sua oncologista. Os estudos científicos não deixavam dúvidas nem esperanças: o mesotelioma era INCURÁVEL, com uma sobrevida média de oito meses depois de confirmado o diagnóstico!!!! 

Em um primeiro momento, Gould ficou em pânico, sem saber o que fazer. Mas seu treinamento acadêmico aflorou e salvou-o do desespero. Tinha passado a vida estudando os fenômenos naturais, transformando-os em números. Se tinha uma lição a tirar disso, é que não  existe na natureza nenhuma regra fixa que se aplique a todos. A variação é a própria essência da natureza. Na natureza, a mediana é uma abstração, uma “lei” que o espírito humano procura aplicar sobre a abundância dos casos individuais.Para o indivíduo Stephen, a questão era saber o seu lugar específico, distinto de todos os outros, no leque das variações em torno da mediana.

O fato de que a sobrevida mediana fosse de oito meses, refletiu Gould, significa que a metade das pessoas acometidas de mesotelioma sobrevivia menos de oito meses. A outra metade sobrevivia portanto mais de oito meses. Em qual metade ele estaria? Como era jovem, não fumava, tinha boa saúde (exceto o câncer) e seu tumor havia sido diagnosticado em estágio precoce, concluiu que tinha todas as razões para estar na “boa metade” – e isso já era um alívio!

Que bigodera, hein Stephen?
Que bigodera, hein Stephen?

Além disso, como pesquisador, Gould sabia que a curva de sobrevida que ele tinha diante dos olhos era de pessoas que tinham sido tratadas dez ou vinte anos antes. Elas haviam tido acesso aos tratamentos da época, dentro das circunstâncias da época. Se tratando de oncologia, a evolução da eficácia dos medicamentos e o conhecimento sobre as neoplasias aumentam significativamente a cada ano. Talvez com o novo medicamento que ia receber e com um pouco de sorte, Stephen faria parte de uma nova curva, com uma mediana mais alta e uma cauda direita mais longa, que iria mais longe, muito longe, até uma morte natural em uma idade avançada.

Stephen Jay Gould morreu vinte anos depois, de outra doença. Teve tempo de concluir uma das mais admiráveis carreiras científicas de seu tempo. Dois meses antes de morrer, ainda assistiu à publicação de sua obra máxima, A Estrutura da Teoria da Evolução. Sua sobrevida foi trinta vezes maior do que os oncologistas haviam previsto. O próprio Stephen conta sua reação às estatísticas de seu câncer em um texto muito bonito chamado “The Median Isn’t the Message” (A mediana não é a mensagem), que você pode ler traduzido aqui.

A lição que nos oferece esse grande biólogo é que as estatísticas são uma informação, não uma condenação. O objetivo, quando se é portador de um câncer e se quer lutar contra a fatalidade, é criar para si todas as condições para se posicionar na extremidade direita da curva.

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– Fonte das imagens: Google

– Fonte das informações: Anticâncer livro do(dr David Servan-Schreiber) e simplesmente.com  

3 comentários sobre “a mediana não é a mensagem

  1. Reconhecer que Deus está no controle e o quanto somos frágeis diante da vida.
    Lindo texto! Vá em frente com a esperança de dias melhores, com paz no coração, amor e muita, mas muita vontade de viver!!!

  2. Belo texto!! Veio em boa hora, estava um pouco desanimada e justamente por causa das estatísticas!!!! O texto renovou as esperanças!!! 😉

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